Preço da hora de trabalho: o erro que come o lucro do serviço
Publicado em · Atualizado em · 7 min de leitura
O preço da hora de trabalho sai errado por um motivo só: a conta divide o custo pelas horas trabalhadas, quando deveria dividir pelas horas faturáveis.
A fórmula correta é (custo fixo do mês + retirada) ÷ horas faturáveis. Com R$ 4.200 a cobrir, dividir por 200 horas dá R$ 21; dividir pelas 120 que viram nota dá R$ 35.
A diferença de R$ 14 por hora não aparece em lugar nenhum, ela some devagar, um orçamento por vez.
Qual é o erro no cálculo da hora?
O erro é usar o mês inteiro como base. Um mês de jornada cheia tem cerca de 220 horas, o padrão de 44 horas semanais da CLT. Mas prestador autônomo não vende 220 horas: vende as horas em que está executando um serviço contratado.
Todo o resto é trabalho não faturado, e ele existe todo mês:
| Para onde vão as horas | Exemplo no mês |
|---|---|
| Visita e montagem de orçamento | 20 h |
| Compra de material e deslocamento | 24 h |
| WhatsApp, agenda e cobrança | 16 h |
| Limpeza, organização e manutenção de ferramenta | 12 h |
| Retorno de garantia e ajuste | 8 h |
| Total não faturável | 80 h |
De 200 horas trabalhadas, sobram 120 horas faturáveis. É por 120 que a conta divide, as outras 80 já estão pagas por elas.
Como calcular o valor da hora de trabalho?
Três passos, nesta ordem.
- Some o custo fixo do mês. Tudo que é pago mesmo em mês sem serviço.
- Defina a retirada. Quanto precisa entrar no bolso por mês, já com uma reserva para o mês parado.
- Conte as horas faturáveis. Olhe os últimos três meses de agenda e some só as horas de execução.
Valor da hora = (custo fixo + retirada) ÷ horas faturáveis
A retirada merece um ajuste que quase ninguém faz. Um autônomo que quer 30 dias parados por ano precisa somar cerca de 8,3% à retirada (um mês em doze). Querer também o equivalente a um 13º acrescenta outros 8,3%. Uma retirada de R$ 3.000 vira R$ 3.500 quando férias e 13º entram na conta.
O que entra no custo fixo do prestador?
Entra o que é pago mesmo quando o telefone não toca. É o teste mais simples: se a conta chega num mês sem trabalho nenhum, é custo fixo.
- Celular e internet
- Transporte: parcela, seguro, manutenção, combustível de base
- DAS do MEI, que é mensal e não olha o faturamento
- Aluguel de ateliê, garagem ou espaço de trabalho
- Energia e água do espaço de trabalho
- Reposição e manutenção de ferramenta
- Anúncio, cartão de visita, impulsionamento
- Contador, quando houver
O que não entra aqui é o material de cada serviço, esse é custo variável e vai direto para o orçamento do trabalho, como mostra a conta de quanto cobrar por um serviço.
Quanto muda a hora conforme a base de cálculo?
Mesma pessoa, mesmo mês, mesmos R$ 4.200 a cobrir. Só muda o número usado como divisor:
| Base usada | Horas | Hora resultante | O que acontece |
|---|---|---|---|
| Jornada teórica cheia | 220 h | R$ 19 | trabalha o mês inteiro e não fecha a conta |
| 8 h por 22 dias | 176 h | R$ 24 | ainda ignora orçamento e deslocamento |
| Horas faturáveis reais | 120 h | R$ 35 | fecha o mês como planejado |
| Mês fraco | 90 h | R$ 47 | preço que sustenta a baixa temporada |
Um serviço de 14 horas cobrado a R$ 19 em vez de R$ 35 deixa R$ 224 na mesa. Doze serviços iguais no ano, R$ 2.688. É o valor de uma ferramenta nova que nunca é comprada.
Para conferir o próprio número sem caneta e papel, a calculadora de preço de serviço faz essa divisão junto com material e margem.
Deslocamento e visita de orçamento contam como hora?
Contam como custo, sempre. A escolha é onde colocar: dentro do valor da hora, para todos os clientes, ou cobrado à parte, para quem está longe.
| Modelo | Como funciona | Quando usa |
|---|---|---|
| Diluído na hora | as horas de visita entram nas não faturáveis e sobem o valor da hora | atendimento no mesmo bairro ou cidade pequena |
| Taxa de deslocamento | linha separada no orçamento, por km ou por faixa de distância | região metropolitana, cliente distante |
| Visita cobrada e abatida | cobra a visita técnica e desconta se o serviço for fechado | diagnóstico que dá trabalho: elétrica, refrigeração, vazamento |
Qualquer um dos três funciona. O que não funciona é o quarto modelo, o mais comum: três visitas por semana de graça, meia manhã cada, somando 20 horas por mês que ninguém paga.
Quando subir o preço da hora?
Quando a conta muda ou quando a agenda enche. Os dois sinais são objetivos e não dependem de coragem.
- Material subiu. Refaça o custo do serviço; o valor da hora só muda se o custo fixo mudar junto.
- Custo fixo subiu. Carro novo, aluguel do ateliê, ferramenta maior: recalcule na hora.
- A agenda está cheia com três meses de espera. Demanda acima da capacidade é o sinal clássico de preço abaixo do mercado.
- Passou um ano sem revisão. Preço parado por 12 meses é redução de preço na prática.
- Todo orçamento é aceito de primeira. Aprovação de 100% costuma indicar preço baixo, não talento comercial.
Reajuste é anunciado antes, com data, e aplicado a orçamentos novos, nunca no meio de um serviço aprovado. Alterar valor de orçamento já aceito exige acordo das duas partes, conforme o §2º do artigo 40 do Código de Defesa do Consumidor, o mesmo detalhado no modelo de orçamento de serviço.
A parte difícil não é decidir o percentual: é a mensagem. Os modelos prontos de aviso de reajuste de preço cobrem o cliente mensalista, o eventual e o que reclama. Em serviços cobrados por área, a hora nova se traduz direto no metro, veja quanto cobrar por metro quadrado de pintura.
Perguntas frequentes
- Como calcular o valor da hora de trabalho de um autônomo?
- Some o custo fixo do mês com a retirada desejada e divida pelas horas faturáveis do mês, não pelas trabalhadas. Com R$ 1.200 de custo fixo, R$ 3.000 de retirada e 120 horas faturáveis, a hora fica em R$ 35.
- Quantas horas de um mês são realmente faturáveis?
- Depende do ofício, mas raramente passa de 60% a 70% das horas trabalhadas. Orçamento, compra de material, deslocamento, cobrança e garantia consomem o restante e precisam estar pagos pelas horas vendidas.
- Devo cobrar por hora ou por diária?
- Calcule por hora e apresente como diária se for o costume do ofício. A diária é só a hora multiplicada pelas horas do dia, e vira armadilha quando é escolhida como número redondo sem nenhuma conta atrás.
- Como incluir férias e 13º no valor da hora?
- Acrescente cerca de 8,3% à retirada para cada um. Querer 30 dias parados e o equivalente a um 13º transforma uma retirada de R$ 3.000 em aproximadamente R$ 3.500 na base do cálculo.
- A visita de orçamento pode ser cobrada?
- Pode, e é comum em elétrica, refrigeração e hidráulica. O modelo mais aceito é cobrar a visita técnica e abater o valor caso o serviço seja fechado, o que remunera o diagnóstico sem afastar o cliente.
- Como avisar o cliente antigo de um reajuste?
- Avise antes, com data de início e escopo mantido, e aplique só a orçamentos novos. Serviço já aprovado tem preço travado: o §2º do art. 40 do CDC só permite alteração por acordo entre as partes.
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